quinta-feira

Brinquedos Afiados...

Quando as Lanternas se apagarem - Parte Final


Edward cuspiu um pouco de sangue que se juntara na sua boca, e em seguida abriu um sorriso. O grande Edward, aquele sujeito que sobrevivera desde os primeiros dias da infestação; frio, preciso, militarmente quieto. Outro sorriso, dessa vez, remetente à uma lembrança. 'Se algum dia eu puder escolher como vai ser minha última visão nessa vida, quero que seja o pôr-do-sol'. Irônico. A Infestação não tornara o pôr-do-sol impossível; na verdade, os dias eram iguais aos de antes. Iguais? Talvez não... Edward mal se lembrava como eram os dias de antes. Lembrava que tinham paz, que podiam deitar-se em suas camas todas as noites para longas horas de sono, sem medo do escuro. Dinheiro era a única coisa que movia o mundo, e era possível encontrar pessoas em todos os lugares.

Depois da Infestação, tudo isso mudou: Sobrevivência era a única coisa que os movia; encontrar outras pessoas aos poucos parecia impossível; e o escuro era o que mais temiam. Edward entendera isso rápido, e logo se adaptou ao mundo. Viveu cada um desses dias confiante em suas habilidades esperando viver para uma reviravolta do amanhã ou morrer vendo o pôr-do-sol.

Nenhum dos dois aconteceria.

Edward começou a ouvir os urros que vinha da rua. Mais urros. Os últimos foram baleados pelas pessoas que ele amava, e era para salvá-las que ele estava ali.

Passos começaram a correr na rua em direção ao supermercado, e Edward olhou, com um sorriso esperançoso, a granada em sua mão.

Não eram mais poucos passos. Eram dezenas. E logo, passaram para centenas. Todos famintos, correndo para seu objetivo: carne fresca e indefesa; Edward. Ele apenas esperava. Não estava ansioso, pois sabia como tudo acabaria. Apenas se perguntava como seria do outro lado; será que lá ele encontraria outras pessoas? O seu pôr-do-sol que não receberia agora? De uma maneira, estava feliz, pois estava dando chance para quem ele amava.

Isso era um motivo nobre para morrer.

Quando as centenas de passos invadiram a rua do supermercado, avançando metros na corrida, Edward soltou o pino da granada.

- Boa sorte, meus amigos - Sussurrou ele com o último sorriso no rosto.


Correndo na estrada, a kilômetros da cidade, Eva e Joseph ouviram a explosão. Seus rostos estavam úmidos de lágrimas.


- Joseph! - Gritou Eva - Cobertura!

Joseph metralhou mais dois e foi para o lado de Eva, enquanto ela trocava as munições das suas submetralhadoras Uzi. Como tantos podiam ser atraídos de uma única vez? Eram centenas, que avançavam pela estrada, pelas montanhas e pelos carros. Vinham de todas as direções. A situação rapidamente se tornava assustadora: se fossem cercados, seria o fim.

Joseph avistou um grande número se aproximando. Metralhou mais um na cabeça, então soltou o pino e lançou uma granada. A explosão lançou pedaços de carne morta e sangue

coagulado por toda a estrada. Eva recarregou as submetralhadoras a tempo de balear três que se aproximavam pelo flanco direito. Joseph virou o corpo e abriu fogo contra mais quatro que avançavam por trás deles; Eva subiu em um dos carros, atirou em mais dois nas pernas, abriu furos na cabeça de mais um...

E então ela o viu.

Seus olhos se arregalaram, o terror afogou suas palavras. Perderam-se por alguns segundos em seu estômago, antes de voltarem á tona num ataque de pânico, gritando por Joseph.

- Não posso agora, Eva! - Respondeu Joseph acertando mais dois que chegavam a menos de dois metros dele.

- Joseph! É um gigante! - Gritou Eva

Todos os músculos de Joseph travaram como se todos os seus vasos sanguíneos tivessem congelado. Quando os zumbis simples já eram motivo para pânico, a Infestação também trouxe mutações em alguns, distorcendo seus músculos e moldando-os em tamanhos descomunais. Eram massas de músculos e gordura, capazes de investidas tão fervorosas quanto um touro atacando. Um desses era capaz de matar dezenas de homens. Sua pele era excepcionalmente áspera, tornando até duas submetralhadoras Uzi não muito mais efetivas do que lançadores de agulha.

O ataque massivo de zumbis continuava; eram intermináveis. Joseph pediu cobertura de Eva para recarregar, enquanto pensava em algum plano para matar o gigante. Mas tinha que ser rápido.

O urro ensurdecedor do gigante ecoou na estrada. Ele inclinou seu tronco deformado e desproporcional de músculos e gordura para frente e começou a investida.

Mais zumbis avançavam junto com ele; os que ficavam em seu caminho, eram pisoteados, deixando apenas um rastro de carne esmagada e ossos quebrados.

Eva metralhou mais alguns, enquanto sua cabeça pensava desesperadamente num plano; e ao primeiro feixe de luz, ela gritou.

- Joseph, corra para longe dos carros!

O gigante se aproximava, sete metros.

Joseph metralhou mais um zumbi, enquanto pulava por cima de um dos carros.

Quatro metros.

Eva metralhou a cabeça de mais um, os dois pinos caíram ao chão.

Um metro.

Eva girou o corpo, encolhendo-se para se jogar para longe. O gigante investiu contra o carro

que ela estava a um segundo atrás...

E as duas granadas explodiram.

Eva foi lançada para longe. A explosão pegara a parte de trás de seu corpo, além de estilhaços que perfuraram sua pele. Ali, jogada no chão, ela mal podia se mexer.

Todas as imagens eram turvas; lentas. Aquele não fora o melhor dos planos, mas era o mais eficiente. Algo em sua cabeça gritava para ela se levantar e fugir, que estava em perigo; mas qual era o perigo mesmo? À sua frente, ela via novamente o jardim de casa, sua mãe parada na porta olhando sua pequena garotinha brincar. Mas também tinha uma voz familiar que não deveria estar ali.

Joseph.

Joseph? Seu amigo gritava o nome de Eva, o barulho de tiros e urros. Tudo parecia uma realidade distante agora. Aqueles urros não pareciam assustá-la mais. Eva sentiu que alguém a pegava nos braços; mas sua mãe estava parada na porta. De quem eram aqueles braços, suados, quentes? Ela ouviu Joseph gritar seu nome mais uma vez.

- Joseph... - Ela falou, surpresa por ver que sua voz não tinha força para sair da garganta - Fique... Bem...


À sua frente, estava mais uma cidade. Joseph tomou o último gole de água e jogou a garrafa longe. Ele não sabia como estaria a cidade. Podia estar tão infestada quanto a última, ou talvez menos, ele não teria chance sozinho. Abaixou a cabeça. Mas tinha que continuar. Não era justo com seus amigos que se sacrificaram para que ele chegasse tão longe... E se rendesse tão facilmente. Mesmo sozinho, ele tinha esperança. Talvez ela não durasse mais do que uma semana, assim como sua sanidade quando ele entendesse que não existia mais ninguém para conversar e tornar o dia seguinte um pouco menos assustador.

Tinha mantimentos para mais três dias; o ideal seria se encontrasse um supermercado.


Fim.

quarta-feira

Além do visual...


Nem há muito o que comentar;
Eras inteiras passam em questão de segundos, mas certas amizades sempre sobreviverão. Por mais diferentes que as duas pessoas sejam, de alguma maneira elas se entendem; acima disso: se apóiam.
Esse acaba ficando um post muito pessoal, mas preferi dividí-los com vocês para mostrar:
Amizades existem. Umas podem ser mais calorosas e afetivas do que outras, mas isso não as faz menos poderosas. Amigos existem independentemente de quem nós somos, a roupa que vestimos ou a música que ouvimos...
Louvem seus amigos. Eles são os personagens de suas histórias.

(Acessem também ~> http://helpingdc.blogspot.com/)

Monstruosidades...

Chapeuzinho Vermelho

Era uma vez, além das montanhas, uma doce menina de cabelos d'Ouro que sempre usava um velho capuz sobre a cabeça. Mamãe, ele precisa de costura; e retalhos cor de maçã nomearam-na:
Chapeuzinho Vermelho.

Certa tarde, mamãe chamou chapeuzinho. Disse-lhe que era para levar uma cesta de geléias para a casa de sua avó; mamãe parecia triste.
- Do outro lado da floresta? - Perguntou Chapeuzinho
- Sim filha. Mas preste atenção: deve chegar lá antes do anoitecer! Não saia da trilha, cuidado com as árvores e não converse com estranhos.

Chapeuzinho vestiu seu capuz, apanhou a cesta e seguiu seu caminho. A trilha era iluminada pela luz do sol; todo o resto da floresta era banhado pela escuridão. Num cantinho da trilha, uma coloração roxa chamou a atenção de Chapeuzinho.
- Violetas! - Animou-se ela, e logo começou a colher. Uma aqui, outra ali; e, aos poucos, a trilha e a luz ficaram para trás.
"Que faz por aqui, menina"
Chapeuzinho assustou-se com a voz grossa; olhando em volta, ela encontrou um sapo gordo, de olhos esbugalhados à beira de um brejo.
- Estou colhendo violetas - Respondeu Chapeuzinho, pouco à vontade; o sapo coaxou.
Chapeuzinho teve um estalo; assustada, começou a procurar a trilha e a luz que deixou para trás, mas aos poucos, a frustração começou a afogá-la.
- Acho que me perdi - Falou Chapeuzinho; O sapo coaxou.
"Cuidado! Cuidado!"
- Não se preocupe, senhor. Chamarei se precisar - Respondeu Chapeuzinho
"Já vai escurecer. Que tem na cesta?"
- Geléia para minha avó que mora do outro lado da floresta - Respondeu Chapeuzinho, olhando para a cesta.
"Então corra para chegar antes"
- De anoitecer...? - Perguntou Chapeuzinho, mas o sapo não estava mais lá.
Chapeuzinho começou a perambular pela floresta procurando uma saída. Aos poucos, chiados e cantos assombrosos cresciam ao seu redor. Os poucos feixes de luz que desciam começavam a enfraquecer. Chiados, flaps de asas, e a luz enfraquecia. Chiados, olhos brilhantes e a luz enfraquecia. Enfraquecia, até morrer.
"Que faz por aqui, menina?"
Chapeuzinho deu um pulo. Começou a procurar de onde vinha aquela voz fina; pousada numa árvore, estava uma enorme mariposa branca, com pó caindo de suas asas.
- Estava colhendo violetas e me perdi - Respondeu Chapeuzinho, mal sentindo a voz sair de sua boca; a mariposa não se mexeu por um longo tempo, então bateu as asas.
"Agora é tarde! É tarde! Cuidado"
- ...Se precisar, chamarei senhora - Respondeu Chapeuzinho confusa.
"Escureceu porque é tarde! Que tem na cesta?"
- Geléia para minha avó, ela mora do outro lado da floresta... - Respondeu Chapeuzinho, dando dois passos para trás e procurando novamente a trilha.
"Pois agora não adianta mais! Suas flores já morreram, menina! Antes você não chega! Não fale com ele, logo todos saem por aí..."
- Obrigada... - Interrompeu Chapeuzinho; mas a mariposa não estava mais lá.
A menina encolheu-se e levou um susto quando olhou para as violetas que colhera há horas atrás; estavam mortas. Ela jogou-as longe e começou a choramingar.
- Quero mamãe...
Logo, a floresta começou a farfalhar. Os chiados e gemidos diminuíram, mas o farfalhar aumentava.
- Estou com medo... - Choramingou a menina; mas a floresta apenas farfalhava, com chiados baixos. Como ela queria estar em casa, como queria estar longe daquele lugar horrível. De onde vinham tantos chiados, tantos barulhos? Quantos estariam observando a menina chorar naquele minuto?
As árvores abriram seus olhos, brilhantes como vagalumes; e um uivo ecoou.

"Que faz por aqui, menina?"
Chapeuzinho estremeceu quando ouviu a voz faminta e viu o horror que saía atrás das árvores; era um lobo enorme, velho e caolho, com uma longa cicatriz no rosto.
- Estava - Gaguejou Chapeuzinho - Levando geléias para minha avó...
"E onde ela mora?"
- Do outro lado da floresta - Respondeu Chapeuzinho sentindo seu coração subir pela garganta.
"E se perdeu? Ora... Que infeliz acaso..."
O lobo começou a sorrir maliciosamente.
- Pode me ajudar? - Perguntou Chapeuzinho, o suor descendo o rosto.
O lobo apenas levantou o focinho para uma direção.
"Siga sem desviar"
Chapeuzinho agradeceu mais de uma vez, antes de correr para a direção indicada.

O lobo sorriu. Correu por um outro caminho, desviando de galhos secos e chegou à casinha de madeira da vovó. Bateu na porta e esperou.
"Quem é?" perguntou uma voz fraca vinda de dentro da casa.
"Sua netinha"
"Ora, entre querida! Boa é a hora que vem!" respondeu a velhinha.
O lobo entrou, espreitando-se pela soleira iluminada; passou pela sala limpa, pelo corredor branco e entrou no quarto arrumado da velhinha. Um grito muito fraco ecoou pela casa; descendo a colina, vinha Chapeuzinho.
Ao se aproximar da casa, a menina estranhou a porta semi-aberta. Bateu uma vez mesmo assim.
- Vovó? É a sua netinha, Chapeuzinho Vermelho. - Ninguém respondeu.
Chapeuzinho empurrou a porta, e entrou na soleira, estranhando por estar escura. Passou pela sala sem ver as pegadas, pelo corredor sem ver as manchas de sangue.
- Vovó, como sua casa está desarrumada! - Falou Chapeuzinho.
Nenhuma resposta; Chapeuzinho começou a ficar enojada.
- Vovó, como sua casa está fedida! - Falou Chapeuzinho, tapando o nariz; mas ninguém respondeu. Do quarto da vovó, começaram a soar sons de pasta.
- Vovó - Disse Chapeuzinho, chegando ao fim do corredor - Que sons estranhos você...
O terror que a menina viu foi tão grande que sufocou suas palavras.

Em cima da cama, estava o lobo, sujo de sangue, devorando o cadáver da velhinha; estava sem um dos braços e sua barriga estava aberta.
Chapeuzinho soltou um grito, enquanto o lobo olhava para ela famintamente. Logo, o corredor, a sala e a soleira passaram correndo pela menina, e a floresta voltava a se aproximar.
Os galhos e os gemidos começaram a persegui-la.
- Socorro! Sapo, Mariposa! Preciso de ajuda!
Mas ninguém respondeu. Nenhum sapo falou.
"Sapos não falam, menina tola"
Nenhum bater de asas de mariposas.
"Mariposas nunca irão responder, minha filha!"
- Não! - Gritou Chapeuzinho.
O farfalho voltou à Floresta.
- Estou com medo!
Gritos, lágrimas.
- Venham me buscar!
Pânico.
- Por favor, alguém! - Berrou a menina.
Mas a única resposta foi um uivo.
Chapeuzinho gritou e chorou
- Mamãe, vovó! Venham me salvar!
"Mamãe estava triste; vovó está morta"
A menina gritou e chorou mais alto, mas apenas o lobo a ouviu.
Um último uivo ecoou, e logo a floresta não chorava mais.

quinta-feira

Brinquedos Afiados...

Quando as lanternas se apagarem - Parte 2

Era um dia ensolarado. No jardim, a pequena Eva brincava de casinha com sua boneca. Mas os vizinhos gritavam muito. Muitos carros estavam passando na rua aquele dia, o que estava acontecendo? Na garagem, um motor desligando. Passos apressados atravessando a casa, até saírem no jardim.
- Eva! Venha querida! Nós temos que ir!
O que mamãe fazia em casa tão cedo? E para onde estavam indo?
- Onde vamos? - Perguntou a menininha de cachos negros.
- Vamos embora! - Um toque de celular - Vamos ficar com o vovô no sítio... - Outro toque de celular, então mamãe atendeu - Alô? Oi. Não, ainda não! Estou em casa, pegando a Eva! -Seus olhos se enxeram de fúria - Eu não podia deixá-la, é minha filha! - Lágrimas escorriam - Não, não fico de jeito nenhum! A cidade está infectada! Se alguém dos arredores morrer... Oh Deus, como isso pode estar acontecendo?!
Por que mamãe estava chorando?
Por que todos estavam correndo, os carros seguindo uma única direção?
Eva? Eva?


Eva balançou a cabeça, espantando a memória ruim. Respirou fundo, esperando manter os últimos fios de coragem para apertar os gatilhos.
Joseph e Edward mantinham o olhar fixo no açougue, seus rifles levantados à altura dos olhos.
Os gemidos se aproximavam, agora formando vultos.
Eva abaixou-se, desligando a lanterna de Joseph. Deviam permanecer na escuridão, dar o mínimo de pistas possível de como serem localizados; se ainda não tinham sido notados, tinham a mínima chance de fugir despercebidos. Mas se tivessem sido, acima de tudo, deveriam permanecer unidos; uma vez que os tiros começassem, ELES poderiam vir de qualquer lugar; e uma ferida profunda seria pior ainda: atrairia multidões deles, assim como açucar atraindo formigas. Mesmo que corressem, ELES correriam atrás; pior: eram mais rápidos.

Gemidos menores.

Passos pesados avançando pelo açougue.

Isso era mal. Não estavam andando aleatoriamente, estavam seguindo uma direção. Se fosse a
errada, ainda teriam chance de fugir furtivos...

Uma pegada úmida. Uma mão apoiando-se numa plataforma e tomando impulso.
Estavam passando por cima do balcão do açougue. Era pior do que Eva pensava: estavam seguindo AQUELA direção.

Tudo estava escuro; desde que Eva desligara a lanterna, suas pupilas ainda não haviam dilatado o suficiente para enxergar na penumbra. Os vultos perambulando pelo corredor, os passos mais pesados, os gemidos mais altos; estariam a uma distância de uns 12 metros e avançavam. Era muito perto, não tinha como errar: estavam indo para lá. Sentiram o cheiro de algo e se aproximavam para verificar se esse algo ainda era capaz de sangrar; mas nenhum dos três queria sangrar aquele dia.

As três lanternas instaladas nas armas foram acesas; e as luzes banharam a multidão de quinze zumbis que avançavam pelo corredor.

- Fogo! - Gritou Joseph.
O barulho que se seguiu foi indistinto; uma espiral de explosões dos tiros, dos urros famintos e dos gemidos dos atingidos. Os passos pesados aceleravam.
No centro, Eva atirava com apenas uma de suas submetralhadoras. Ed e Joseph seguravam firmemente os fuzis M16 ao lado dela, seus olhos frios em suas vítimas.

Edward recuou dois mínimos passos. A ponta de seu fuzil piscava com as balas que saíam desesperadas para acertar os zumbis; uma massa de corpos que avançava freneticamente, seus olhos e dentes brancos brilhando nos flashes de tiros.

Mais zumbis vinham do açougue.

A munição de Joseph acabara.
- Eva! - Gritou ele - Cobertura!
Bastou ela erguer a outra mão, carregando a outra submetralhadora e as luzes no supermercado se tornaram mais intensas.

Os suor escorria em seus rostos.
No chão, as carcaças que não conseguiam mais levantar se tornavam mais numerosas; poças e espirros de sangue coagulado, velho davam um vermelho sinistro no caminho. Menos e menos zumbis apareciam no açougue; fora uma vitória fácil, sem deixar qualquer um se aproximar mais do que 4 metros.

Joseph recarregara seu fuzil e acertou mais quatro tiros, derrubando um zumbi que pulava o balcão do açougue. Atrás deste, vinham mais.

Mais, sempre vinham mais.

Mais urros, mais gemidos. Mais do que esperavam.

As balas perderam velocidade. Os sons ficaram mudos. Eva ouvia apenas seu coração subindo pela garganta enquanto a conclusão e o desespero inundavam seu corpo. Os urros e gemidos vinham de mais de uma direção.

Do lado direito do trio, o vidro da porta se estilhaçou.

O som dos urros tornou-se insuportável.

Edward, que ficava do lado direito, virou-se para atirar nos que avançavam pela lateral; mais de vinte; e suas balas estavam acabando.
Ele moveu-se alguns passos para o lado, abrindo espaço para seus companheiros ganharem mobilidade.

A massa frenética que vinha pela direita chegava mais perto; poucos caíam pelos tiros de Edward; nove, oito, sete metros...

- Joseph! - Gritou Edward com toda a força de seus pulmões.
Eva moveu-se para frente, mantendo as duas submetralhadoras erguidas. Derrubava dois, três, quatro zumbis nos fundos do açougue; sangue coagulado espirrava pelo corredor; Joseph cessou os tiros, apenas para virar para sua direita, avançar dois passos por trás de Eva até chegar ao lado de Edward, e então acertar três tiros na cabeça de um que estava a menos de cinco metros.

Apenas mais dois zumbis avançavam pelo açougue; no entanto, pelo flanco direito eles chegavam a distâncias assustadoramente próximas.

As balas de Edward acabaram.

- Eva! - Ele gritou - Cuida daqui!
A distância entre os zumbis e as submetralhadoras aumentava; isso piorava sua eficiência. Eva baleou mais um zumbi, então ergueu as armas e correu para o lugar de Edward.

Ele suava recarregando seu fuzil. No fundo do açougue, três urros famintos e logo, passos desesperados avançaram pelo corredor.

Estava na metade do processo. Ele conseguiria antes de chegarem.

Cinco metros.

Faltava pouco, estava quase recarregada.

Três metros.

Fora um erro ficar ali.

- EVA! - Gritou Edward em pânico.

Eva abriu os braços, direcionando o esquerdo para o corredor do açougue enquanto mantinha o direito no flanco. Por uma fração de segundo, ela viu os três zumbis numa distância apavorante de Edward. Sua submetralhadora disparou contra o mais próximo, abrindo fileiras de furos em sua lateral e espirrando sangue coagulado.

O fuzil estava pronto. Edward ergueu-o a tempo de balear o zumbi que já estendia os braços para pegá-lo, abrindo enormes furos em seu tórax.

Eva voltou sua atenção para o flanco, baleando outro que estava a menos de seis metros.
Os zumbis soltavam gemidos úmidos enquanto caíam para trás.

Edward se virou para atirar no segundo...

O grito gelou o coração de seus companheiros. Eva ousou olhar para trás e seus olhos foram hipnotizados pelo terror.

O terceiro zumbi mordia freneticamente o ombro esquerdo de Edward, que atirava desesperadamente para frente enquanto perdia o ar dos pulmões nos gritos de dor; juntou com toda a sua força os mais fracos fiapos de controle e acertou sete tiros descoordenados na barriga do adversário faminto.

O zumbi soltou um gemido que minguou conforme ele caiu seco; Edward despencou de joelhos.

No flanco, o cheiro de sangue fizera os zumbis enlouquecerem; os últimos cinco avançaram da rua, indo direto na direção de Edward; tiros nas pernas, nos tórax e nas cabeças, e antes deles cairem, Eva e Joseph já corriam ao socorro do companheiro.
Ed estava encharcado de suor, sua respiração pesada.
Eva acendeu sua lanterna de mão, mirando o feixe de luz para o ombro ferido; uma enorme marca de mordida dilacerava a carne, pele e tecido, cercada por uma extensa mancha de sangue. Joseph já corria para pegar sua mochila.
- Isso... Vai... Atrair... Uma... Centena... Deles... - Falava Edward, olhando aflito para Eva.
- Nós vaos sair dessa, Ed! - Mas os olhos dela estavam vidrados de desespero.
Joseph voltou correndocom uma seringa carregada de um líquido violeta.
- Isso vai doer no começo, parceiro, mas vai te aliviar em alguns minutos - E antes que Edward pudesse falar algo, Joseph espetou a seringa na mordida, descarregando todo o líquido.
Edward urrou de dor; Joseph tomou distância; Eva permanecia com o olhar fixo em Edward, seu parceiro tão controlado se debatendo de dor.
- Isso vai livrá-lo da infecção, mas ainda precisamos limpar o sangue! Precisamos pensar rápido em como sair daqui! - Falou Joseph, interrompendo os pensamentos de Eva.
Eva pensou, sem tirar os olhos de Edward.
- Iremos para a estrada. Podemos procurar carros parados e atirar à distância. Com o efeito do antídoto, o sangue estancará em algumas horas...
- Precisamos de mais do que isso Eva! - Interrompeu Joseph - Será pelo menos uam centena deles!
Ela não desviava os olhos de seu parceiro, seus olhos desesperados com um fraco brilho de esperança.
- Nós temos que conseguir!


Edward aos poucos se acalmava. Parara de se debater e não gritava mais de dor; sua respiração ainda estava pesada. Eva e Joseph terminavam de colocar os mantimentos nas mochilas; na rua, urros e gemidos ecoavam de cantos diferentes.
- Me deixem... - Suspirou Edward.
Joseph, o mais próximo, respondeu sem olhar para ele.
- Não seja ridículo! Não vamos deixar você aqui! É nosso companheiro!
Edward soltou uma risada forçada.
- Não posso ser responsável pela morte de vocês!
- Nem nós pela sua! - Interrompeu Eva - Vamos avançar pela estrada e pegar cobertura! Em algumas horas...!
Os urros e gemidos se tornaram mais intensos. Estavam se aproximando.
- Me deixem! - Insistiu Edward - Posso servir de isca! Darei tempo a vocês!
Eva olhava fixamente para Edward, seus olhos se perdendo em um futuro incerto.
Na rua, já era possível ouvir os passos correndo para o supermercado.

Continua...

quarta-feira

Monstruosidades...

- Qual a doença? - Perguntou o doutor a caminho da sala de operação.
- Não foi uma doença, doutor. Foi um acidente de carro - Falou a enfermeira.
- Qual o estado?
A enfermeira fez uma pausa.
- Grave.

Sala de operação.

O doutor Maciére trabalhava sozinho, lentamente, apenas com o zunido da lâmpada que iluminava a maca e o paciente; todo o resto da sala estava engolido na escuridão.
A enfermeira entrou. Caminhou silenciosamente, como um gato se aproximando de sua vítima e observou de longe como andava a operação.
- Pois não? - perguntou o doutor, inesperadamente.
- Oh - Espantou-se a enfermeira, desconcertada por não ter sido tão silenciosa quanto pensara. As palavras não subiam à garganta.
- Tudo bem, tenho um bom ouvido para pegar respirações, se é que me entende... - Explicou o doutor, ainda fixo em seu trabalho.
Ela apenas assentiu, esquecendo-se por alguns segundos que ele não prestava atenção nela. Acalmou-se um pouco e perguntou.
- Como ele está, doutor.
Ele respirou fundo. Interrompeu-se um pouco e olhou para a enfermeira.
- Uma perna com fratura exposta, uma mão decepada, cortes por todo o corpo e o peito inteiro putrefato.
A enfermeira assentiu novamente.
Ambos olharam juntos para o cadáver e silenciaram-se por alguns segundos. Logo, o zunido foi acompanhado pelo suspiro da enfermeira.
- Ora, não se preocupe! - Interrompeu o doutor Maciére - Ele ainda tem a cabeça, um braço e uma perna bons, fora que era em geral bonito. Vamos encontrar outra mão, outra perna e uma pele de peito melhor para ele...
A enfermeira assentiu, virando-se para seguir para a sala onde guardavam os membros extras.
- Ah sim - Chamou o doutor antes que ela fechasse a porta - Traga mais linha de costura. Eram muitos cortes, não sei se sobrará para os membros novos. Não queremos que quando ele levante, seu corpo comece a desmontar pelo caminho, certo?!

Tesouras Cegas...

Eles cantam de suas vantagens e riem dos que não se defendem
Eles impõem suas próprias regras e Cospem no Respeito das pessoas;
Aturamos tudo isso até um Ponto...
Até um Ponto...
Até Eles tentarem matar por liberdade da diversão egoísta; e não terão direito de chorar e implorar pelo perdão quando a Noite chegar.
E não terão Tempo de se despedir quando chamarmos nossos Iguais para arrastar,
Um por Um,
para longe de seus Falsos Protetores

terça-feira

GloomCester Says...



Acabo de voltar do cinema, a sessão à noite de Alice no País das Maravilhas.
É a segunda vez que vejo, e não pude resistir de comentar por aqui.

Vou começar com uma única palavra para cercar todo o meu comentário:

Indigesto.

O filme é Indigesto.

Não usando a palavra num sentido negativo, MUITO pelo contrário; há tanta riqueza, tanta mensagem, tanta coisa a se prestar atenção que não é possível engolir o filme inteiro de cara; é preciso receber a informação, sair, pensar, dissecar o filme na sua cabeça, esfriar a idéia... Então voltar e reassistir, cada cena, cada detalhe, cada mensagem.
Sim, CADA.
Isso porque é um filme minimamente bem trabalhado.

Vamos pelo básico: As críticas gerais falam que o filme não é uma boa adaptação. Se pararmos para ver, o filme não é uma adaptação de nada, é uma colcha de retalhos; uma história meio Frankenstein saída direto da mente de Tim. Ele pega um pedaço de um livro de Carrol aqui, outro livro ali, mistura conforme quer, recostura como quer; é um processo de mutilar a história original, pegar os pedaços e recolocá-los até ficar a cara do próprio diretor.
Algo negativo nisso? Duvido muito...

Tim Burton mostrou, com muito estilo que não é simplesmente um contador de histórias. Todos esperavam a história original de Alice apenas com figurinos e cenários Burtonianos e Johnny Depp em outro papel louco; mas o diretor possivelmente preferiu ir além: ele pegou os personagens, as falas, as temáticas mais influentes de Alice no mundo DELE e misturou tudo para mostrar ao NOSSO mundo. Não é simplesmente uma história recontada, é uma exposição de como uma das mais loucas histórias do mundo influencia um dos mais loucos diretores do mundo.

Passar da realidade para voltar ao "País das Maravilhas"? Adolescência.

Escrever uma história segundo as suas regras e não simplesmente pelo que dizem? Fibra.

Enfrentar, de cabeça erguida, um desafio destinado a você, mesmo que seja literalmente um Dragão? Amadurecimento.

MUITAS outras coisas se escondem no filme. Tim Burton literalmente RECRIOU o País das Maravilhas, a ponto que sempre que vemos o filme encontramos algo novo.

E sua genialidade não afogou seu estilo encantador.

Alguém mais conseguiu ver traços da floresta de Sleepy Hollow nas primeiras cenas no País das Maravilhas? Alguém mais lembrou-se de Jack Skellington ou Beetlejuice quando viu o teto listrado na toca do coelho? Alguém mais ficou confuso se entrava na Fantástica Fábrica de Chocolates quando viu tantas cores e sorrisos juntos?

Tim Burton amadureceu. Mais do que já era. Talvez entre muito de minha admiração pessoal por ele nessa crítica, peço desculpas por isso, mas tenho certeza que outros também perceberão o que digo.

A reação foi negativa talvez porque as pessoas não estivessem prontas para encontrar algo tão fora do comum, como uma história praticamente refeita apenas à vontade de seu diretor para dar ênfase a seus pontos favoritos ou mais profundos. O filme tem defeitos, como qualquer outro, mas chega a ser mágico a ponto de deixar lições tão claras na mente e tão turvas em palavras.

O figurino, a luz e sombra, o cenário... Tudo isso está claramente Burtoniano no filme, assim como em qualquer outro vindo dele. No entanto, o diretor inaugurou algo mais: a mutilação livre e destaques recosturados da história original. A pura influência de Alice na mente de Burton.

As pessoas esperavam mais do filme...

Mas quem sabe Tim Burton também não esperava mais de nós?